Fretamento privado cresce como alternativa para deslocamentos corporativos e eventos
A volta dos encontros presenciais redesenhou a rotina das empresas brasileiras nos últimos dois anos. Reuniões que migraram para a tela durante a pandemia voltaram às salas físicas, e com elas veio um problema prático que poucos gestores tinham na agenda: como levar dezenas de pessoas de um ponto a outro sem improviso.
A resposta tem sido o fretamento privado, modalidade que cresce em ritmo acelerado e já movimenta bilhões de reais por ano no país.
Os números do setor confirmam o tamanho dessa mudança. O Anuário Brasileiro do Setor de Locação de Veículos 2025, publicado pela Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis, mostra que o mercado faturou 52,9 bilhões de reais em 2024, alta de 17,8% sobre o ano anterior.
O segmento de veículos coletivos puxou esse avanço. Foram 2.762 ônibus e micro-ônibus emplacados por locadoras ao longo do ano, crescimento de 27,9%, o que elevou a frota dessas categorias em mãos de empresas de locação para 8.819 unidades.
O que está por trás do crescimento
A expansão não acontece por acaso. O número de locadoras em atividade no Brasil saltou de cerca de 20 mil para quase 24 mil entre 2023 e 2024, uma diferença de 19,2% segundo a mesma associação. A maioria são empresas de pequeno e médio porte, com frota especializada em fretamento.
Esse desenho do mercado revela um detalhe importante: a demanda não vem só das grandes corporações, mas também de companhias menores que passaram a tratar o transporte de equipes como item permanente do orçamento.
Levantamento do Fretadão, plataforma de gestão de transporte corporativo que opera em 21 estados e administra mais de 2,5 milhões de viagens mensais, aponta que a procura pelo fretamento subiu 20% em 2024 na comparação com o ano anterior.
A plataforma identificou dois motores principais. O primeiro foi o retorno ao trabalho presencial em diversas empresas. O segundo, a retomada do calendário de feiras e congressos, que ficou praticamente vazio durante os anos de isolamento e voltou com força.
A Confederação Nacional do Transporte registrou aumento no número de postos formais no setor rodoviário de passageiros em regime de fretamento, indicador que reforça o aquecimento. Quando uma atividade gera empregos formais em ritmo crescente, há sinal de que a demanda deixou de ser pontual e virou estrutura.
Os eventos corporativos como combustível
A relação entre fretamento e eventos é direta. Cada congresso, feira ou convenção que reúne centenas de participantes precisa resolver a logística de deslocamento, e foi justamente esse setor que disparou no Brasil recente.
O III Dimensionamento do Setor de Eventos no Brasil 2024/2025, conduzido pelo Observatório da Indústria do SENAI Ceará com apoio do Sebrae e da ABEOC Brasil, mostrou a dimensão do mercado.
Em 2024, o país realizou mais de 10 milhões de eventos, com cerca de 1,7 bilhão de participações de público. O faturamento chegou a 813,5 bilhões de reais, o equivalente a 4,6% do Produto Interno Bruto nacional. O estudo mapeou aproximadamente 300 mil empresas vinculadas à cadeia de eventos.
São Paulo concentra a maior fatia desse movimento. Dados do Barômetro Eventos B2B 2025, da União Brasileira de Feiras e Eventos de Negócios em parceria com a São Paulo Turismo, registraram 1.511 eventos de grande porte na cidade ao longo de 2025, número 22% maior que no ano anterior. O impacto econômico estimado foi de 14 bilhões de reais. No primeiro semestre, foram 612 eventos B2B que reuniram 3,2 milhões de visitantes únicos.
O ritmo do primeiro trimestre de 2025 mostrou que o movimento não perdeu fôlego. Foram 1.584 eventos de grande porte só nesse período em São Paulo, com movimentação de 5,9 bilhões de reais, alta de 110% sobre o mesmo intervalo do ano anterior. Mantido esse ritmo, a capital paulista caminhava para fechar o ano com cerca de 6 mil eventos, o maior número da série histórica recente.
Há um dado que ajuda a entender a maturidade do setor. Levantamento da plataforma DataEventos apontou que a taxa média de conversão de propostas em contratos caiu de 66,22% em 2024 para 57,45% em 2025.
À primeira vista parece um sinal negativo, mas o número revela o contrário: um mercado mais competitivo, em que as empresas avaliam com mais rigor formato, custo e entrega antes de fechar.
Transporte entrou nessa avaliação. O deslocamento de participantes virou linha de orçamento analisada com a mesma atenção dada à locação do espaço ou ao buffet.
Cada um desses visitantes precisa chegar ao local, circular entre espaços e voltar ao hotel ou ao aeroporto. É essa engrenagem que sustenta a demanda por transporte de grupos.
Por que a van substituiu o carro individual
Em cidades de trânsito pesado e grandes distâncias, mover um grupo em vários carros separados gera mais custo, mais atraso e menos controle. A conta não fecha quando uma empresa precisa levar quinze ou vinte colaboradores ao mesmo destino no mesmo horário.
De acordo com uma empresa de locação de van em São Paulo, o serviço com motorista atende principalmente eventos corporativos, congressos, feiras, transfers para aeroportos e viagens ao interior, com veículos de 15, 18 e 20 lugares. A lógica do fretamento é reunir todos no mesmo veículo, o que reduz o número de trajetos, organiza horários e tira do passageiro a preocupação com estacionamento e rota.
Esse modelo ganhou espaço também porque dispensa investimento em frota própria. Para a empresa contratante, fretar significa pagar apenas pelo uso, sem arcar com manutenção, seguro, depreciação e gestão de motoristas. Em um cenário de orçamentos enxutos, essa equação pesa na decisão.
Os valores praticados ajudam a explicar a adesão. Um serviço de transfer para aeroporto costuma partir de algumas centenas de reais, enquanto a contratação para um evento corporativo de meio período fica em uma faixa que dilui bem o custo quando rateado por quinze ou vinte passageiros.
Comparada ao gasto somado de táxis ou aplicativos para o mesmo grupo, a conta do fretamento tende a ser menor, sem contar o ganho em organização e pontualidade.
Há ainda a questão da responsabilidade. Quando uma empresa coloca os próprios funcionários para dirigir em deslocamentos de trabalho, assume riscos que vão do desgaste do colaborador a eventuais acidentes.
Transferir essa função para um fornecedor especializado, com motorista profissional treinado e seguro de passageiros, retira da contratante uma camada de exposição que nem sempre estava clara no modelo antigo.
A flexibilidade que o modelo híbrido exigiu
O trabalho híbrido mudou a forma como as empresas pensam o transporte. Em vez de contratos rígidos com rotas fixas, cresce a procura por soluções ajustáveis. Equipes que vão ao escritório em dias alternados, eventos que acontecem em datas específicas e demandas que variam conforme o mês exigem fornecedores capazes de adaptar a operação.
A combinação de tipos de veículo virou prática comum. Vans para deslocamentos curtos e grupos menores, micro-ônibus e ônibus para convenções, feiras e viagens de incentivo de maior porte. Empresas que conseguem oferecer essa variedade têm vantagem na disputa por contratos corporativos.
A tecnologia entrou nessa conta. Rastreamento por GPS, histórico de viagens, plataformas de cotação e agendamento online passaram a ser critério de escolha. O gestor que contrata transporte para uma equipe quer acompanhar onde está o veículo e ter previsibilidade sobre horários, algo que processos manuais não entregam.
O que esperar dos próximos anos
A trajetória do setor aponta para continuidade. O turismo interno segue forte e impulsiona viagens de grupos para o litoral, o interior e destinos de natureza, ampliando a demanda para além do uso corporativo.
O calendário de eventos, por sua vez, não dá sinais de recuo. O Brasil avançou dez posições no ranking da Associação Internacional de Congressos e Convenções em dois anos, movimento que tende a atrair mais encontros internacionais ao país.
Para as empresas que organizam, patrocinam ou participam desses eventos, o transporte deixou de ser detalhe operacional e virou parte da experiência. Um deslocamento mal planejado compromete a percepção de um congresso inteiro. Um traslado pontual e confortável, ao contrário, passa despercebido, que é exatamente o objetivo.
O fretamento privado se firmou como resposta a uma necessidade concreta. Enquanto o presencial seguir como ferramenta de negócio e o calendário de eventos continuar cheio, o transporte de grupos seguirá entre as decisões logísticas que as empresas brasileiras não conseguem mais terceirizar para o improviso.
Fonte: Via: florestanoticias




Publicar comentário